agosto 07, 2020

O que leva o potiguar a não usar máscara para se proteger da Covid-19?

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A medida em que a doença se alastra pela periferia, trazida da Europa inicialmente por famílias de classe média de bairros mais abastados, o uso da máscara de proteção virou um verdadeiro cabo de guerra entre muita gente e pelas razões mais variadas.

O fotógrafo Ney Douglas, com décadas de janela, reúne todas as habilidades da profissão quando o assunto é capturar flagrantes.

Mas, esta semana, ele teve dificuldade ao receber a espinhosa tarefa de documentar pessoas em Natal e Pipa na rua sem máscara de proteção. A primeira orientação recebida foi de que, quando se tratasse de uma pessoa caminhando sozinha, ele buscasse “descaracterizar” o rosto dela. “Defina uma imagem descaracterizada”, quis saber do editor pelo WhatsApp.

“Mostra que a pessoa está sem máscara sem mostrar o rosto dela”, foi a resposta. Ou seja, mostrando e não mostrando. Por que tanta dificuldade?

Desde que o Senado tornou obrigatório o uso de máscara em todo o território nacional, dia 4 de junho, depois do presidente Jair Bolsonaro vetar a obrigatoriedade de seu uso em órgãos e entidades públicas e em estabelecimentos comerciais, industriais, templos religiosos, instituições de ensino e demais locais fechados, deu para entender que a batalha não seria fácil.

Na medida em que a doença se alastrava pela periferia, trazida da Europa inicialmente por famílias de classe média de bairros mais abastados, o uso da máscara de proteção virou um verdadeiro cabo de guerra entre muita gente e pelas razões mais variadas possíveis.

O fotógrafo Ney Douglas que o diga. “Quando me aproximava para documentar gente andando sem máscaras as agressões eram comuns, havia pessoas que se sentiam invadias e quando uma se dava ao trabalho de dialogar, afirmava que não queria ser julgada pelo fato de não estar usando a proteção”, relata.

Não é uma questão nova, especialmente quando se sabe – não de hoje – que as máscaras de proteção servem mais impedir (em parte) que uma pessoa doente passe o vírus adiante; já o fato de outra pessoa saudável também usar máscara é mais uma questão de prevenção e respeito ao próximo.

Assim, quando duas pessoas estão de máscara e guardando certa distância uma da outra, a possibilidade de espalhamento do contágio se reduz significativamente.

O comércio foi o primeiro a comprar as medidas fitossanitárias e pode-se dizer, hoje, que ninguém sem uma máscara entra num estabelecimento comercial de Natal, embora de vez em quando alguns engraçadinhos tentem.

À medida em que os bares e outros locais públicos vão recebendo autorização para reabrir, junto com as aglomerações, mais pessoas voltam a ser vistas circulando sem máscara, especialmente nas baladas noturnas, como o próprio Ney Douglas documentou na praia de Pipa e pontos da orla de Natal.

“Enquanto nos bairros mais populares as pessoas seguiam o padrão de usar máscaras de proteção, nos locais mais frequentados pela classe média, como Ponta Negra, era possível ver com frequência gente quebrando a regra, mas também não querendo aparecer em fotos”, diz o fotógrafo.

Cronologia da regra

Natal baixou no final de abril a obrigatoriedade do uso de máscara nas vias públicas, transportes coletivos, particulares e nos estabelecimentos comerciais.

Na ocasião, a Capital só tinha 402 casos confirmados de coronavírus e 11 mortes, segundo boletim da Secretaria Estadual de Saúde.

Hoje, passados 90 dias, já são 53.500 casos e perto de 2 mil óbitos.

Nesse cabo de guerra entre usar e não usar máscara de prevenção contra o coronavírus, pesou muito a posição pessoal do presidente Jair Bolsonaro a respeito.

Isso ficou bastante evidente por ocasião dos vetos dele à lei que disciplina o uso de máscara em espaços públicos (nº 14.019, de 2020), sancionada em junho, quando o Brasil já assumia a vice-liderança em mortes pela Covid 19, só atrás dos EUA.

Pedro é zelador de um prédio em Natal e confessa que ficou confuso naquela ocasião se deveria continuar ou não usando máscara no trabalho. “Aqui a ordem partiu do condomínio e todos foram obrigados a trabalhar com a proteção”, conta.

Ney Douglas, o fotógrafo do Agora RN, voltou da cobertura convencido que as pessoas mais pobres são mais obedientes ao uso de máscaras porque “têm muito medo de ficar doentes, já que sabem que não terão costas largas no serviço de saúde quando o bicho pegar”.

A diarista Maria Auxiliadora sabe tanto disso que passou meia hora no telefone, esta semana, negociando como seria a faxina na casa de uma antiga cliente que, como ela, não havia pego o coronavírus junto com o marido, ambos aposentados e da chamada “melhor idade”.

Finalmente ficou decidido que Maria pegaria um desses carros que aceitam só três pessoas por viagem, ao invés de um ônibus; que a porta do apartamento estaria aberta para ela; ela entraria e logo tomaria um banho, trocaria de roupa e colocaria a usada no trajeto na máquina de lavar.

“Depois de quatro meses em casa sem trabalhar foi a maneira encontrada para voltar a faturar um dinheirinho”, conta.

Com a flexibilização do comércio e a volta dos shoppings que funcionam com sistema de ar condicionado central, o medo das autoridades sanitárias agora é para um aumento de contágios, a exemplo do que já aconteceu em estados do Sul da região País.

Nenhuma novidade

Não há novidade em se andar com máscaras, fazer quarentena e manter comércio e escolas fechados. Em 1918, a grande pandemia da gripe espanhola — que, na verdade, teve origem nos Estados Unidos – obrigou o mundo a entrar nessa rotina, no final da Primeira Guerra Mundial.

Mesmo com lentos navios ligando os continentes, a gripe se espalhou rapidamente, matando 40 milhões de pessoas, mais até que nos campos de batalha.

Só no Brasil tombaram morreram 35 mil, entre eles o recém-eleito presidente Rodrigues Alves, que nem chegou a assumir.

Nos meses finais da Primeira Guerra Mundial, o uso de máscaras era considerado símbolo de patriotismo. A Cruz Vermelha fabricava e distribuía os equipamentos em todo os Estados Unidos, mas não havia o suficiente para todo mundo.

Mas havia também a liga dos Sem Máscaras, que se organizaram e deram muito trabalha para as autoridades sanitárias. Adivinhem o argumento: desconfiados da eficácia das máscaras para frear o avanço da doença, a Liga acusava as autoridades nos EUA de violar seus direitos constitucionais e pediam a volta à normalidade.

Ocorrido há mais de 100 anos, esses protestos lembram episódios idênticos nos EUA e no Brasil, onde o presidente da República é o primeiro a dar o mau exemplo, apesar de já ter contraído a Covid e, é claro, ter sido muito bem tratado por seus médicos particulares.

Fonte: Agora RN

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