fevereiro 26, 2022

Guerra entre Rússia e Ucrânia deve elevar ainda mais inflação no Brasil

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O início do conflito entre Rússia e Ucrânia nesta semana  deve elevar a inflação no Brasil, puxada especialmente pelo preço dos combustíveis e dos alimentos. O principal temor, segundo o professor de administração e mercado financeiro, Henrique Souza, é com relação à cotação do dólar, do ouro e do petróleo, além do fechamento de fronteiras na região onde os combates ocorrem atualmente.

A preocupação aumenta, segundo especialistas ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE, à medida que o Brasil  já sofre com os efeitos da inflação decorrentes da pandemia de covid-19 há pelo menos dois anos. O aumento dos preços dos combustíveis – em especial, da gasolina – está entre os  impactos que poderão ser observados diretamente no bolso do consumidor brasileiro.

Vale lembrar que a gasolina recebeu sucessivos aumentos em 2021, em função da política de paridade internacional (PPI) utilizada pela Petrobras para precificar o combustível no País. A PPI leva em conta o preço do barril do petróleo no exterior e a cotação do dólar. Já no  primeiro dia do conflito entre Rússia e e Ucrânia, o preço do barril fechou em US$ 100. O dólar também disparou e teve alta de 2%. 

 Grandes efeitos, segundo Henrique Souza, só devem ser observados, no entanto (no caso da gasolina), se o conflito se prolongar, o que, na opinião dele, não deve acontecer. Para Souza, os maiores impactos nos preços dos combustíveis no Brasil advêm diretamente da tributação local e da própria inflação, já em curso no País. Contudo, analisa, a crise na Europa poderá intensificar os problemas por aqui.

Na avaliação do professor de Geografia, Cláudio Custódio, o cenário é de alerta.  “O preço dos combustíveis, que já é um problema, irá se agravar ainda mais, considerando que o Brasil vem de uma situação política com muita instabilidade econômica. Então, a situação é preocupante.
Henrique Souza concorda, mas afirma que o preço do petróleo não deve sofrer grandes aumentos daqui para frente. Para um cenário hipotético mais fiel dos impactos no Rio Grande do Norte, por exemplo, levando em conta o aumento do petróleo, fonte da qual deriva a gasolina, o Estado levaria de seis a oito meses para que o preço nas bombas chegue aos R$ 10. 

Se a hipótese parece um tanto quanto distante, ela deve-se, segundo Souza, a estabilidade que ele atribui ao preço do petróleo daqui para frente, mesmo com a possibilidade de prolongamento do combate na Europa.

“É lógico que se houver um tempo maior [de conflito], os impactos serão maiores. Nós importamos petróleo bruto, mas importamos o refinado, na forma de combustíveis. Por isso que quando essa fonte sobe lá fora, o preço dos combustíveis aumenta por aqui. Mas o principal fator para a elevação de preços são os tributos, em especial o ICMS e a própria inflação”, explica.  

Segundo ele, a possibilidade de o preço da gasolina chegar a R$ 10 no Estado em 2022 seria uma previsão que provavelmente não se confirmaria. No entanto, frisa, não dá para descartar o fato de que a guerra na Ucrânia trará impactos para a economia brasileira.

“A partir da questão de que nós demandamos a necessidade de um petróleo refinado, podemos falar sim nesses efeitos negativos, com o aumento dos combustíveis em função da elevação do preço do petróleo”. As relações comerciais com a Europa também serão afetadas, na avaliação do professor. “Em primeiro lugar, é importante considerar que há uma  instabilidade política e de relações diplomáticas aí, e o Brasil poderá tomar partido na esfera do conflito”, indica Souza.

“Em segundo lugar, temos que levar em consideração que Bolsonaro visitou a Rússia na semana passada e essa   aproximação é necessária, porque o Brasil faz parte do BRICS, que é uma associação econômica de peso muito grande mundialmente. Ao mesmo tempo, a Ucrânia é um grande produtor de milho e acaba suprindo as necessidades de vários países, dentre eles o Brasil”, complementa o professor. 

Por isso, segundo ele, as tratativas que o Governo brasileiro terá de fazer deverão ser “extremamente diplomáticas”, pois há uma grande dependência entre o Brasil e esses países. Além do que, o mercado brasileiro pode sofrer com a diminuição de investimentos, diante de uma possível redução da produtividade econômica europeia. “Isso pode comprometer as exportações dos produtos brasileiros, o que fará com que nossa balança comercial seja prejudicada”, explica Henrique Souza.

Trigo também deve ser afetado, diz economista
Além do petróleo e do dólar, o economista e professor Zivanilson Silva chama atenção para o trigo, commodity exportada pela Rússia e pela Ucrânia e que, a exemplo da fonte para produção de combustíveis, registrou alta frente às tensões do conflito. Em três dias, a elevação nos contratos da Bolsa de Chicago foi de 10% em relação ao trigo. Os dois países são responsáveis por 14% da produção mundial e fornecem 28% das exportações em todo o globo. 

“Não podemos vaticinar quanto tempo essa invasão vai durar. Mas a crise vai respingar aqui também. O grande ensinamento é de que a guerra não é boa para ninguém. E, no nosso caso, dependemos do petróleo e do trigo argentino que, na bolsa de mercadorias, sentirá os impactos do fornecimento do cereal pela Europa”, explica Zivanilson Silva, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). 

Segundo o professor, a carne brasileira, que é exportada, assim como as frutas (no caso específico do RN, o melão, principalmente) serão afetadas, uma vez que a Europa, grande consumidora de gêneros alimentícios do País irá sofrer com as oscilações do mercado provocadas pelo conflito. O especialista diz, ainda, que o fato de o Brasil exportar commodities e  importar petróleo e derivados, irá afetar  a política cambial, com a desvalorização do real.
 
Professor avalia que não há risco de conflito mundial
As cenas de horror da invasão russa à Ucrânia veiculadas pela mídia para todo o mundo e as incertezas e preocupações em relação à economia, apesar de um cenário muito duro, não representam risco de um conflito global, na avaliação do professor de Geografia, Cláudio Custódio. O risco tem sido superestimado e o país ucraniano, na avaliação de Custódio, não desperta interesse mundial para que se desencadeie tal evento.

“Estamos superestimando o conflito de forma absurda. Não acredito numa escalada de violência para configurar uma participação direta dos Estados Unidos, que aí, sim resultaria numa guerra global. Mas, felizmente, não acredito que uma 3ª Guerra Mundial seja viável”, analisa.

“Avaliando friamente, o mundo não estaria disposto a arriscar o próprio pescoço no sentido de iniciar uma guerra pela Ucrânia. Potencialmente, aquele país não tem uma participação global nos interesses geopolíticos e mundiais. Claro, ficar de olho na Rússia é muito interessante nesse momento”, afirma.

Questionado sobre a postura do Brasil em relação ao conflito, o professora aposta: “A tendência é que o Brasil continue com a postura de defesa da paz e da neutralidade, que são princípios da nossa Constituição”, indica. 

Impactos do conflito
Pontos que o investidor precisa ficar atento

Além das perdas humanas que um conflito armado ocasiona, a economia mundial também é inevitavelmente afetada. Rússia e Ucrânia são grandes produtores e exportadores de commodities e a eclosão de uma guerra entre os dois países deve impactar todos os mercados globais. João Beck, economista e sócio do BRA, explica que, diferentemente da pandemia, o mercado se protegeu. “Isso ficou evidente desde o sobrepreço dos contratos de derivativos de diversas classes de ativos até a disparada do preço do petróleo e derivados. A crise ucraniana foi escalando ao longo das semanas”, diz. A economia brasileira não está imune às tensões no leste europeu. Conheça alguns pontos que o investidor precisa ficar atento enquanto o conflito estiver acontecendo.

1) O preço das commodities vai subir
O principal efeito do conflito na economia vai ser sentido via commodities, principalmente as energéticas e as agrícolas. Pela primeira vez em sete anos, o preço do barril de petróleo ultrapassou a casa dos US$ 100. O gás natural também sobe 40% nesta quinta-feira. A Rússia é uma grande produtora e exportadora de ambos os produtos e a possibilidade de interrupção nas cadeias produtivas faz os preços aumentarem.

2) Inflação nos alimentos
Além da Rússia, referência em gás natural e petróleo, a Ucrânia também tem forte agricultura, sendo responsável por mais de 10% da produção mundial de trigo. A paralisação da produção ucraniana deve reduzir significativamente o estoque do insumo no mercado e aumentar os preços dos alimentos mundo afora. “São commodities que afetam diretamente o consumo primário de consumidores, o pãozinho, a gasolina”, diz Aragão. Com a tendência de aumento nos preços das commodities agrícolas e, em consequência, dos alimentos, há também um aumento da renda direcionada para alimentação e menos consumo para gastos discricionários e serviços em todo mundo.

3) Desaceleração no mercado global
Com as condições do mercado mais restritas, deve haver menos liquidez nas bolsas para financiamento e menos apetite para investimentos – vetores que podem levar à desaceleração do crescimento global.

4) Aumento das taxas de juros
Em uma tentativa de conter a inflação, que já vinha acelerada por causa dos efeitos da pandemia, as economias mundiais vão ficar pressionadas para aumentar suas taxas básicas de juros. “A alta das commodities se soma ao cenário de inflação alta em todo mundo e pode ocasionar um aperto monetário (subida de juros) maior do que o projetado”, explica Beck, da BRA.
Se o banco central dos Estados Unidos já vinha endurecendo o discurso monetário, agora a situação deve piorar. “O FED fica numa sinuca de bico. Por um lado, a desaceleração global pode aliviar a inflação de salários que hoje é um canal de contágio relevante. Por outro lado, a alta das commodities pressiona preços industriais”, afirma.

5) Haverá efeitos do conflito no Brasil
E como fica o Brasil? O Ibovespa vem de um movimento de recuperação, acumulando ganhos de 6,85% no ano até o pregão de quarta-feira (24). Para Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos, a pergunta é se vamos ter na B3 apenas uma correção ou uma queda mais forte, mas ainda não é possível saber a resposta.

“O Brasil não é diretamente afetado, podemos dizer até o contrário, já que é exportador de matéria- prima que está subindo. Os setores produtores de matéria-prima devem se dar bem: petróleo, minério, alimentos, exportadoras, empresas indexadas ao dólar”, explica.

6) Aversão ao risco
O mercado financeiro como um todo vai ficar com uma grande aversão ao risco. “Quem está mais perto sofre mais, mas o Brasil, por ser emergente, também vai sentir”, diz Cunha, da iHUB. Ativos de empresas do setor de construção, que dependem mais da taxa de juros, de varejo ou as techs, que performam pior em momentos de aversão ao risco, devem sofrer mais. João Beck, da BRA, acrescenta que os efeitos sentidos pelas potências globais também vão se refletir aqui. “Em especial o contágio de inflação que pode forçar o Banco Central americano ao aumento mais acentuado da taxa de juros num ambiente econômico fragilizado e endividado”, afirma.

Fonte: Tribuna do Norte

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